segunda-feira, 23 de março de 2009

O velho Marx, quem diria, foi parar na Broadway...

Que o filósofo alemão estava na moda, todos já sabiam. No turbilhão do capitalismo em crise, liberais empedernidos reagem à reabilitação da fortuna crítica sobre o materialismo dialético enquanto marxistas vulgares pregam o fim do mundo ao estilo "nós avisamos!". No embalo dessa onda, produtores chineses aprontam um musical sobre "O Capital". Não deixa de ser interessante imaginar o "fetiche da mercadoria" e o conceito de "mais-valia" com fundo musical orquestrado. Não me surpreenderia que uma possível futura montagem norte-americana ganhasse o Tony. Quem, no frigir neoliberal dos anos 80, poderia prever essa possibilidade?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ícone kitsch e eterno e único carisma

No documentário "Carmen Miranda - Banana is My Business", Helena Solberg faz referência a chegada da pequena notável em solo norte-americano: "Todos perceberam que a Grande Depressão acabara quando Carmen Miranda desembarcou em Nova York".
Se estivesse viva, a mais brasileira das portuguesas, Maria do Carmo Miranda da Cunha, faria 100 anos hoje. Já se escreveu muito sobre Carmen, e sua figura hipnotizante e icônica vale mais do que longos calhamaços. Apenas uma pesquisa no Google já oferece 1.080.000 resultados.
Carmen Miranda é um daqueles exemplos clássicos de como o nacionalismo ainda pulsa poderoso. Basta ler os comentários sobre seus vídeos no Youtube, onde brasileiros e portugueses se engalfinham para definir sua nacionalidade. Quando ela voltou dos EUA em 1940 acusaram-na de voltar "americanizada". Mesmo em sua morte, em 1955, havia quem ainda guardasse mágoa por sua brilhante carreira em Hollywood. E havia os que a enxergavam apenas como instrumento da política de boa vizinhança, ignorando seu genuíno talento. Ver a artista em cena é a melhor maneira de celebrar o inexplicável carisma que ela exerce, nitidamente brasileiro, mas livre de qualquer amarra:

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Alemanha, o papa e a culpa histórica

Se o assunto é Holocausto, a Alemanha não titubeia. O peso do passado é uma lâmpada piscando para cada alemão em qualquer filme sobre o Auschwitz ou em informais conversas de bares e biergartens. No centro de Berlim, ao lado do Portão de Brandenburgo, um imenso memorial cumpre a função de lembrar os cidadãos o seu lúgubre passado recente. Talvez um pitoresco agricultor da Saxônia até sinta-se livre para expressar suas opiniões pessoais sobre racismo, xenofobia, nazismo e genocídio. Mas o governo alemão, desde que a guerra acabou, insiste em deixar claro: o Holocausto é um patrimônio de responsabilidade alemã, assim como é para os israelenses ou para os judeus da diáspora. Se a escravidão foi a chaga do Brasil, o genocídio da população judaica européia é o fardo eterno da nação alemã.
Foi no espírito dessa responsabilidade que a premiê Angela Merkel exortou o papa Bento XVI a deixar claro a posição sobre a negação do Holocausto. Joseph Ratzinger, alemão da Bavária, reabilitou o bispo Richard Williamson, que põe em dúvida a dimensão do extermínio dos judeus pela máquina nazista. Mais uma polêmica e mais gasolina na delicada relação entre o Vaticano e a comunidade judaica.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fatos históricos no nascedouro:
A posse do primeiro presidente negro dos EUA

Barack Hussein Obama, havaiano, negro, advogado, filho do economista queniano Barack Obama e da antropóloga norte-americana Ann Duhnam tornou-se neste dia 20 de janeiro de 2009 o primeiro afro-descendente a ocupar a vaga política mais importante do mundo. Sem dúvida um lugar garantido nos manuais escolares de história e nas enciclopédias. Futuro nome de ruas, praças, fundações. Um fato histórico genuino, com todo cerimonial que lhe cabe. Obama tomando posse vale o quilate simbólico do discurso de Roosevelt em 1933, De Gaulle discursando do exílio, Reagan exortando Gorbachev a derrubar o muro de Berlim ou Lula recebendo a faixa de FHC no Brasil.
Os EUA vivem um momento único de ressaca econômica misturada com felicidade ansiosa por um tempo melhor. Obama sabe disso e tem aproveitado o momento como ninguém. A futura iconografia dos livros de história irão focar a elegante caminhada do presidente negro e sua esposa pela avenida Pensilvânia na fria tarde deste 20 de janeiro, ovacionado por uma multidão em visível alegria. Mas, nas páginas que ainda não foram escritas, como serão os anos Obama? Historiadores de hoje têm o privilégio de viver esses dias.

(Na foto, cidadãs de Nova York assistem, com um olhar quase incrédulo, a posse de Obama. Foto: Tristanbrand/Flickr)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Israel em Gaza ou defesa com massacres colaterais...

Se Edward Said, um dos maiores intelectuais palestinos do nosso tempo, estivesse vivo, certamente escreveria um longo artigo sobre a última e sangrenta ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Sua observação perspicaz, com toda a coragem que só a liberdade da militância intelectual permite, apontaria as contradições de mais uma aventura militar israelense, que em nome da "defesa de sua cidadania" avança em mortes às centenas. Qualquer observador mais atuante saberia que as ações de Israel, iniciadas na calada do feriado de fim de ano, não resultaria em "apenas" dezenas de mortos. O saldo seria sangrento e bárbaro: homens, mulheres, velhos e crianças mortos, sob escombros. É fácil ser profeta quando se fala em ações do exército de Israel. Mais ainda no vácuo de poder americano e com às vésperas das eleições. Temerosos por sua segurança e influênciáveis pela retórica sionista, os israelenses votam de acordo com a severidade do seu exército. Os palestinos que elegeram o Hamas também votaram de acordo com a rudeza dos seus mais afiados extremistas.


Milhares sem casa, água, comida, remédios. Até a ONU, com seus ouvidos moucos e olhos míopes para a tragédia palestina, sentiu na carne a superioridade das "razões de Estado". Nos últimos dias do governo Bush, o governo de Ehud Olmert parece estar disposto a dar a sua última mostra de unilateralismo. Com Obama surgindo no horizonte, as liberdades de Israel não parecem tão possíveis assim. Quando Condollezza Rice se absteve de votar em uma moção contra o estado israelense na ONU o mundo notou que, mesmo em alianças estratégicas, tudo tem limite. Os foguetes do Hamas apavoram as populações de cidades israelenses. Mas usá-los como justificativa para bombardear escolas com mulheres e crianças parece longe demais da realidade para que a comunidade internacional aceite sem pensar. Existe um abismo de diferença entre a ansiedade por um provável ataque de míssil do Hamas sem direção e a certeza de uma chuva de bombas sobre uma densa área populosa. A imprensa internacional, mesmo que em uma parcela mínima, parece ter entendido a discrepância.

Pela primeira vez parece que o mundo reagiu à uma ofensiva de Israel com um pouco mais de clamor à favor dos palestinos. Longe do ranço do antissemitismo e com uma postura crítica, milhares sairam às ruas para pedir um basta. Os mais otimistas poderiam ver nisso uma guinada em direção a um entendimento maior sobre a realidade de milhares de pessoas, presas em campos de refugiados, vítimas de uma ocupação ilegal e irracional, que faz germinar o radicalismo e a violência dos ataques suicidas. Nessas horas, Edward Said é a melhor indicação para quem quer entender um pouco essa parte do mundo. Os palestinos clamam por serem também compreendidos em sua tragédia que já dura mais de 60 anos. Até brilhantes intelectuais israelenses sabem disso. Para os defensores do Hamas, ler Said é ter também um pouco mais de senso crítico, para dar mais sustentação à acusações e críticas

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Trilhos da paulicéia

São Paulo é uma cidade tão cruel, muitas vezes, que até priva seus pobres habitantes de algumas pequenas felicidades momentâneas. Andar de trem é uma delas.
Dia desses deixei o carro em casa e fui de trem. Sim, o bom e velho ferrocarril, o monstro de ferro que desbravou os campos e trouxe o progresso, o comboio dos operários da periferia, o prosaico e eficiente transporte ferroviário.
Depois de uma caminhada saudável cheguei à Estação da Cidade Universitária, às 7h da manhã, para embarcar em direção ao trabalho. Imediatamente me lembrei das minhas andanças em Berlim, quando ir da Zoologischer Garten Hauptbahnhof até a estação de Ostkreuz era parte do prazer de viajante mochileiro. Sem dúvida nenhuma que o trem de subúrbio é o mais cosmopolita dos transportes, ao lado do metrô. Tirando o fedor do Rio Pinheiros e a endêmica feiura paulistana, o trem mantém seu charme. É claro que não estamos em Berlim ou Paris. Mas eu já tinha me esquecido de um prazer que eu cultivava desde a infância. Andar de trem sempre foi uma das minhas predileções.
É tão irritante saber que, um dia, interesses econômicos e a estupidez política decidiram que o transporte rodoviário e a cultura do carro seria o foco do nosso "desenvolvimentismo". Ao invés de avenidas horrorosas ao lado de rios e mananciais poluídos no nascedouro teriamos parques, e talvez trilhos. São Paulo sempre dá a impressão de ser uma cidade que poderia ter sido e nunca será.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Joaquim Maria, o sempre atual, manda lembranças

Falar de Machado de Assis sem cair no clichê é tarefa difícil., .
Mas, nunca é demais reforçar que, parafraseando em parte Luiz Inácio , "Nunca na história desse país" a nossa elite senhorial iria ter uma radiografia tão criticamente bem feita que, de tão bem desenhada, ela mesma não seria capaz de enxergar-se. Machado escrevia para quem tinha olhos abertos, mas os cegos e míopes podiam lê-lo sem maiores traumas existenciais.
Não deixa de passar pela nossa cabeça como seria o quadro social dessa nossa elite de início do século XXI (cada um tem a que merece) descrita por Machado. Nosso tempo do consumo, da sociedade do espetáculo, do vício tecnológico, do capitalismo pujante vizinho desavergonhado da alarmante miséria, da guerra social e da violência, das mulheres e homens coisificados. É um exercício quase delicioso, e não menos tétrico, imaginar tudo isso visto pelas lentes machadianas. Bacharéis e sinhazinhas do século XXI provavelmente comprariam o livro do escritor ao vê-lo na lista dos mais vendidos na Revista Veja, da qual são assíduos leitores, sem atentar para o fato de que suas próprias caricaturas sociais estão impressas em sofisticada escrita.

O mulato Joaquim morreu em 29 de setembro de 1908, tendo sido identificado como branco em seu atestado de óbito. Ele se adaptaria facilmente ao nosso tempo em que ser mulato é cool
  • Toda a obra de Machado na internet. Enjoy