terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fatos históricos no nascedouro:
A posse do primeiro presidente negro dos EUA

Barack Hussein Obama, havaiano, negro, advogado, filho do economista queniano Barack Obama e da antropóloga norte-americana Ann Duhnam tornou-se neste dia 20 de janeiro de 2009 o primeiro afro-descendente a ocupar a vaga política mais importante do mundo. Sem dúvida um lugar garantido nos manuais escolares de história e nas enciclopédias. Futuro nome de ruas, praças, fundações. Um fato histórico genuino, com todo cerimonial que lhe cabe. Obama tomando posse vale o quilate simbólico do discurso de Roosevelt em 1933, De Gaulle discursando do exílio, Reagan exortando Gorbachev a derrubar o muro de Berlim ou Lula recebendo a faixa de FHC no Brasil.
Os EUA vivem um momento único de ressaca econômica misturada com felicidade ansiosa por um tempo melhor. Obama sabe disso e tem aproveitado o momento como ninguém. A futura iconografia dos livros de história irão focar a elegante caminhada do presidente negro e sua esposa pela avenida Pensilvânia na fria tarde deste 20 de janeiro, ovacionado por uma multidão em visível alegria. Mas, nas páginas que ainda não foram escritas, como serão os anos Obama? Historiadores de hoje têm o privilégio de viver esses dias.

(Na foto, cidadãs de Nova York assistem, com um olhar quase incrédulo, a posse de Obama. Foto: Tristanbrand/Flickr)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Israel em Gaza ou defesa com massacres colaterais...

Se Edward Said, um dos maiores intelectuais palestinos do nosso tempo, estivesse vivo, certamente escreveria um longo artigo sobre a última e sangrenta ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Sua observação perspicaz, com toda a coragem que só a liberdade da militância intelectual permite, apontaria as contradições de mais uma aventura militar israelense, que em nome da "defesa de sua cidadania" avança em mortes às centenas. Qualquer observador mais atuante saberia que as ações de Israel, iniciadas na calada do feriado de fim de ano, não resultaria em "apenas" dezenas de mortos. O saldo seria sangrento e bárbaro: homens, mulheres, velhos e crianças mortos, sob escombros. É fácil ser profeta quando se fala em ações do exército de Israel. Mais ainda no vácuo de poder americano e com às vésperas das eleições. Temerosos por sua segurança e influênciáveis pela retórica sionista, os israelenses votam de acordo com a severidade do seu exército. Os palestinos que elegeram o Hamas também votaram de acordo com a rudeza dos seus mais afiados extremistas.


Milhares sem casa, água, comida, remédios. Até a ONU, com seus ouvidos moucos e olhos míopes para a tragédia palestina, sentiu na carne a superioridade das "razões de Estado". Nos últimos dias do governo Bush, o governo de Ehud Olmert parece estar disposto a dar a sua última mostra de unilateralismo. Com Obama surgindo no horizonte, as liberdades de Israel não parecem tão possíveis assim. Quando Condollezza Rice se absteve de votar em uma moção contra o estado israelense na ONU o mundo notou que, mesmo em alianças estratégicas, tudo tem limite. Os foguetes do Hamas apavoram as populações de cidades israelenses. Mas usá-los como justificativa para bombardear escolas com mulheres e crianças parece longe demais da realidade para que a comunidade internacional aceite sem pensar. Existe um abismo de diferença entre a ansiedade por um provável ataque de míssil do Hamas sem direção e a certeza de uma chuva de bombas sobre uma densa área populosa. A imprensa internacional, mesmo que em uma parcela mínima, parece ter entendido a discrepância.

Pela primeira vez parece que o mundo reagiu à uma ofensiva de Israel com um pouco mais de clamor à favor dos palestinos. Longe do ranço do antissemitismo e com uma postura crítica, milhares sairam às ruas para pedir um basta. Os mais otimistas poderiam ver nisso uma guinada em direção a um entendimento maior sobre a realidade de milhares de pessoas, presas em campos de refugiados, vítimas de uma ocupação ilegal e irracional, que faz germinar o radicalismo e a violência dos ataques suicidas. Nessas horas, Edward Said é a melhor indicação para quem quer entender um pouco essa parte do mundo. Os palestinos clamam por serem também compreendidos em sua tragédia que já dura mais de 60 anos. Até brilhantes intelectuais israelenses sabem disso. Para os defensores do Hamas, ler Said é ter também um pouco mais de senso crítico, para dar mais sustentação à acusações e críticas

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Trilhos da paulicéia

São Paulo é uma cidade tão cruel, muitas vezes, que até priva seus pobres habitantes de algumas pequenas felicidades momentâneas. Andar de trem é uma delas.
Dia desses deixei o carro em casa e fui de trem. Sim, o bom e velho ferrocarril, o monstro de ferro que desbravou os campos e trouxe o progresso, o comboio dos operários da periferia, o prosaico e eficiente transporte ferroviário.
Depois de uma caminhada saudável cheguei à Estação da Cidade Universitária, às 7h da manhã, para embarcar em direção ao trabalho. Imediatamente me lembrei das minhas andanças em Berlim, quando ir da Zoologischer Garten Hauptbahnhof até a estação de Ostkreuz era parte do prazer de viajante mochileiro. Sem dúvida nenhuma que o trem de subúrbio é o mais cosmopolita dos transportes, ao lado do metrô. Tirando o fedor do Rio Pinheiros e a endêmica feiura paulistana, o trem mantém seu charme. É claro que não estamos em Berlim ou Paris. Mas eu já tinha me esquecido de um prazer que eu cultivava desde a infância. Andar de trem sempre foi uma das minhas predileções.
É tão irritante saber que, um dia, interesses econômicos e a estupidez política decidiram que o transporte rodoviário e a cultura do carro seria o foco do nosso "desenvolvimentismo". Ao invés de avenidas horrorosas ao lado de rios e mananciais poluídos no nascedouro teriamos parques, e talvez trilhos. São Paulo sempre dá a impressão de ser uma cidade que poderia ter sido e nunca será.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Joaquim Maria, o sempre atual, manda lembranças

Falar de Machado de Assis sem cair no clichê é tarefa difícil., .
Mas, nunca é demais reforçar que, parafraseando em parte Luiz Inácio , "Nunca na história desse país" a nossa elite senhorial iria ter uma radiografia tão criticamente bem feita que, de tão bem desenhada, ela mesma não seria capaz de enxergar-se. Machado escrevia para quem tinha olhos abertos, mas os cegos e míopes podiam lê-lo sem maiores traumas existenciais.
Não deixa de passar pela nossa cabeça como seria o quadro social dessa nossa elite de início do século XXI (cada um tem a que merece) descrita por Machado. Nosso tempo do consumo, da sociedade do espetáculo, do vício tecnológico, do capitalismo pujante vizinho desavergonhado da alarmante miséria, da guerra social e da violência, das mulheres e homens coisificados. É um exercício quase delicioso, e não menos tétrico, imaginar tudo isso visto pelas lentes machadianas. Bacharéis e sinhazinhas do século XXI provavelmente comprariam o livro do escritor ao vê-lo na lista dos mais vendidos na Revista Veja, da qual são assíduos leitores, sem atentar para o fato de que suas próprias caricaturas sociais estão impressas em sofisticada escrita.

O mulato Joaquim morreu em 29 de setembro de 1908, tendo sido identificado como branco em seu atestado de óbito. Ele se adaptaria facilmente ao nosso tempo em que ser mulato é cool
  • Toda a obra de Machado na internet. Enjoy

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O mercado "nervoso" ou engasgos do neoliberalismo

No já clássico "A Era dos Extremos: O breve século XX", Eric Hobsbawn afirma que, com certeza, sem o colapso econômico do entre guerras, fruto do crash na bolsa norte-americana em 1929, não teria havido Hitler. E quase certamente não teria havido Roosevelt.
Mesmo com uma certa resistência às versões "da história que poderia ter sido", não há como afirmar que a crise do liberalismo, que acentuou o fascismo e desembocou na guerra mais mortífera da história, não tenha surgido do rastro daquele dia fatídico. O capitalismo da alta roda sentiu o frio na espinha, financistas estouraram os miolos e o mundo adentrou num túnel negro que só terminaria após o fim da guerra.


Usando as palavras do próprio historiador britânico: "As operações de uma economia capitalista jamais são suaves, e flutuações variadas, muitas vezes severas, fazem parte integral dessa forma de reger os assuntos do mundo"(A Era dos Extremos, pag. 91). "Essa forma de reger os assuntos do mundo" dá mais um sinal de sua essência auto-destrutiva. Nada mais exemplar do que a última segunda-feira, quando a concordata do Lehman Brothers, o 4º maior banco de investimento dos EUA, afundou os mercados. Arautos do mundo financeiro apressaram-se em dizer que essa é a pior crise desde a fatídica quinta-feira de 1929. O neoliberalismo já está em crise, isso é fato, embora o mundo do pragmatismo prefira disfarçar a doença terminal. Mas se a história pudesse se repetir literalmente, de onde viriam os novos Hitler e Roosevelt? Só há uma certeza. Em tempos de ações em baixa e economia em recessão, liberais de carteirinha perdem a língua e "apelam" ao Estado, esse inimigo do indivíduo e do livre-mercado. Passada a crise (se passar), como é de praxe, o Estado será culpado por ela e os especuladores de Wall Street serão apenas "o efeito colateral" da natural ordem do mercado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O começo do fim em 2001

Nenhuma propaganda anterior aos ataques do 11/09, anunciando um mundo aparentemente pleno de felicidade com avanços tecnológicos, da internet, do fim das guerras ideológicas entre o socialismo real e o capitalismo (com a "vitória" inegável do segundo) e globalização à caminho do progresso teve o poder de eficácia da imagem dos dois aviões seqüestrados atingindo em cheio dois ícones do poder financeiro. Em poucas horas, o planeta parecia estar sendo despertado do torpor da aparente bem-aventurança linear do século XXI por uma nuvem de poeira com cheiro de querosene, entulho e carne calcinada.

Os ataques do 11 de setembro não deixaram somente um buraco no Marco Zero. Criaram um ponto de interrogação gigantesco a respeito dos futuros embates que nos restam. Se os Estados Unidos puderam viver uma hegemônia realmente plena, ela se estendeu da queda do Muro de Berlim até aquela fatídica manhã novaiorquina de aviões seqüestrados. A História já demonstrou mais de uma vez que o que vem do lado oriental é o que sempre surpreende, como uma manhã que nasce antes da hora.

A reação doméstica:


terça-feira, 9 de setembro de 2008

"Oye, una fresa! hoy es mi dia de suerte!"

A popularização do DVD tornou possível encontrar alguns títulos da cinematografia mundial que não se encontrariam tão facilmente há uns 3 ou 4 anos atrás por ai. Nessa leva, vasculhando as baciadas das lojas de departamentos, consegui trazer "Morte e Veneza" de Visconti, "Plata Quemada" de Marcelo Piñeyro, "Guerra e Paz" com Audrey Hepburn, entre outros títulos para minha coleção pessoal. Tudo bem que hoje em dia é fácil baixar o que se queira via torrent, mas nada como um filme a preço acessível, com capa ilustrada, extras e legendas já organizadas.
Minha última boa surpresa dessa leva foi "Morango e Chocolate" do celebrado diretor cubano Tomáz Gutièrrez Alea, com Jorge Perugorría, Vladimir Cruz e Mirta Ibarra. Eu tinha esquecido o quanto o filme era tão degustativo. Mais do que uma película sobre a amizade, as idiossincrasias ideológicas de um regime socialista e a homossexualidade sob o comunismo (condição pária em qualquer regime político, pelo menos até hoje), "Morango e Chocolate" é um brinde à cultura cubana. Principalmente ao apreço à cultura e à intelectualidade, suprimida em alguma instância pela realidade política. O Diego de Jorge Perugorría é a própria celebração dessa Cuba de Marti, Lezama Lima, Reinaldo Arenas.



Infelizmente a capa do DVD traz indicações pouco aprofundadas a respeito do filme. "Morango e Chocolate" não é uma comédia saborosa ao gosto latino, como os jornais norte-americanos anunciaram. Mais do que isso, é um retrato fiel e justo de um país cheio de riqueza intelectual, às voltas com a situação de penúria financeira provocada pela fidelidade a um modo de vida socialisa em um cenário neo-liberal pouco simpático. Fidelidade cujo custo são as liberdades individuais. Mas não há como reconhecer, na criativa vida de Diego e em sua fala sedutora, toda a espontaneidade que é impossível de se ocultar. Quem não viu, veja