sábado, 10 de abril de 2010

A tragédia de Katyn, 70 anos depois

No último dia 07 de abril, o premiê russo Vladimir Putin visitou a cidade de Katyn, no oeste da Polônia, para prestar homenagem aos 22 mil oficiais poloneses sumariamente executados em 1940 pela polícia política soviética, a mando de Josef Stálin. Katyn sempre foi uma ferida aberta nas relações entre a Polônia e a União Soviética, e continuou a ser mesmo com o fim do comunismo no Leste Europeu. O episódio foi utilizado pelos próprios nazistas, que descobriram as valas comuns, para propagandear a suposta vilania dos comunistas aos poloneses e à toda Europa. Katyn também ilustra as diversas publicações a respeito dos crimes na história do comunismo soviético. O fato é que a elite militar e até intelectual da Polônia, menos de um ano após a invasão alemã em 1939, foi exterminada.

A visita de Putin me despertou o desejo de escrever um post sobre a memória do massacre e suas consequências, ou as novas relações entre a Polônia e a Rússia. Não tive tempo para escrever sobre o tema. Ironicamente, quando o presidente polonês Lech Kaczynski se dirigia para relembrar os mortos, o avião presidencial caiu na Rússia, a caminho de Katyn, matando todos à bordo.

Ironias históricas são mais comuns do que imaginamos, mas a maioria das pessoas não se lembra deles. Fatalmente os poloneses não esquecerão a data de hoje.

O cineasta Andrzej Wajda recentemente fez um filme espetacular sobre o episódio, que vale a pena ser visto

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O morro não tem vez...

Até às 14h37 minutos desta sexta-feira, 09 de abril, já são 186 mortos no Estado do Rio de Janeiro, depois de uma semana de chuvas intensas no Sudeste. Embora os jornais e o poder público divulguem a tragédia "causada pelas fortes chuvas", o olhar mais acurado reconhece onde está a verdadeira causa, a origem do drama, a raiz da catástrofe.

A maioria quase absoluta das mortes ocorre entre os mais pobres, que viviam em favelas e encostas, zona desconhecida dos mecanismos estatais, a não ser nos justificáveis casos de especulação imobiliária e repressão policial. Um coro uníssono culpa o poder público, autoridades culpam o excesso de chuva, as mudanças climáticas. Para os mais místicos, é fim do mundo que se aproxima.



Pouca gente se lembra de onde veio aquela gente que ocupou aqueles espaços, nem as diversas razões estruturais que os empurraram para lá. Nem mesmo os 186 mortos até agora levantam a discussão de sua historicidade em qualquer debate. As quase 200 casas engolidas pela lama de um antigo lixão do Morro do Bumba, em Niterói, serão esquecidas em pouco tempo. O fato é que todos estão viciados e entorpecidos pelo tempo presente e assim permanecerão quando a lama secar e os atestados de óbito estiverem devidamente arquivados e computados nas estatísticas oficiais.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O microcosmo das raízes totalitárias

Ao ver "A Fita Branca", (Das Wiesse Band, do austríaco Michael Haneke), não pude deixar de me lembrar do controvertido livro de Daniel Jonah Goldhagen ("Os Carrascos Voluntários de Hitler: o povo alemão e o Holocausto", Cia das Letras). Não que a sofisticação cinematográfica de Haneke ("Caché", "A Professora de Piano") se compare à discutível tese de Goldhagen sobre a culpa do cidadão alemão comum na máquina genocida. Minha associação se deu por conta das críticas apontando o filme de Haneke como uma análise das raízes do nazismo no microcosmo educacional alemão em uma pequena vila durante a Primeira Guerra Mundial.

Concordo com algumas críticas sobre a tese já defasada das raízes psicológicas do nazismo (como apontada no Café História por Bruno Leal), mas ao mesmo tempo reconheço que o filme de Hanecke joga luz sobre as bases sociais do apelo ideológico fincadas na tradição e no processo educacional. O mais interessante do filme de Hanecke é que naquela vila alemã o processo pode ser facilmente reconhecido (assim como no interessantíssimo livro de "O Jovem Törless" de Robert Musil).

Para quem não viu "A Fita Branca", o trailer:



Para quem ainda não leu "O Jovem Torless", uma boa análise

E uma crítica lúcida ao livro de Daniel Jonah Goldhagen

terça-feira, 23 de março de 2010

Tenochtitlán, México...


Viajei a trabalho, no dia 13 de março, para a Cidade do México. Eu teria apenas uma semana para aproveitar a estadia na antiga capital dos mexicas, um esparramo urbano formidável e uma das maiores metrópoles do mundo, encravada onde um dia foi o lago Texcoco. Se não dependessemos da inconstância do futuro, eu poderia dizer que esse foi apenas o ensaio de uma visita mais aprofundada em uma cidade fascinante, capital de um país com peculiaridades sem limites.

Qualquer visitante estreante do Distrito Federal mexicano que se interesse pelo seu passado histórico tem que invariavelmente visitar o Museu Nacional de Antropologia. Aproveitei o domingo, ainda cansado das 9 horas de vôo, para me embrenhar pelas 12 galerias de uma das maiores instituições museológicas do mundo. Se me faltava tempo para conhecer in loco a diversidade regional mexicana, o imenso prédio do Parque de Chapultepec cumpriu bem o seu papel.

Se estiver na cidade ou planeja uma viagem por lá, não deixe de ir. No site é possível conhecer uma parte do acervo

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Revisão histórica e oportunismo editorial


Nesta quarta-feira de cinzas, em meio a lentidão característica do retorno após o feriadão do Carnaval, o "Entre Aspas", da Globo News, capitaneado pela jornalista Mônica Waldwogel, trouxe à baila a discussão a respeito das mudanças recentes na disciplina historiográfica brasileira. Com o título de "Novos estudos reformulam a História do Brasil", o programa teve como pauta as novas teses que "questionariam heróis e mitos do passado".

Minha primeira reação foi de curiosidade e simpatia. Não é todo dia que os programas jornalísticos resolvem falar sobre a disciplina História e seus últimos desdobramentos, mais ainda em se tratando de Brasil. Um contentamento que teve vida curta. Para discutir o tema, dois polemistas de plantão: o historiador Marco Antônio Villa e o jornalista Leandro Narloch. O primeiro, facilmente reconhecível NESTA entrevista para a nossa já famigerada revista Veja. O segundo, um escriba no melhor estilo "Super Interessante", coletor de polêmicas historiográficas com claras intenções no lucrativo mundo das publicações de almanaque. Na mira, as teses esquerdizantes que, segundo a opinião de ambos, contaminam o ensino e a pesquisa.

Contra um ou outro, e seus objetivos editoriais ou acadêmicos, nada contra. Contra a abordagem do programa, tudo. Narloch e seu lucrativo "Guia politicamente incorreto da História do Brasil," já na lista dos mais vendidos, é um festival iconoclasta sem profundidade, embora calcado em pesquisas acadêmicas. O manual que pretende "derrubar cânones historiográficos" parece ter escolhido bem suas "vítimas". Na tentativa de derrubar os tais mitos, cria outras possíveis verdades interpretativas na cabeça de quem não aprendeu a ter leitura crítica.

Sem dúvida que é fácil encontrar várias teses historiográficas cujo alinhamento ideológico revela sua própria fragilidade científica. Mas daí a incensar um filão editorial que claramente se apóia nessas críticas há um grande abismo. O que realmente faz falta é o debate. Assim como as falácias históricas que ambos apontam, falta pouco exercício crítico. Todos querem falar e serem ouvidos ou publicados. A grande questão é que o mercado editorial e a imprensa dão mais apoio a uma das partes.

Para quem quiser tirar suas próprias conclusões, é só assistir

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O escritor argentino Tomás Eloy Martinez morreu neste domingo, 31 de janeiro, depois de uma longa luta contra o câncer. Romancista brilhante, revolucionou de certa forma o modo de se fazer um romance histórico, ao explicitar o grau de invenção da própria escrita histórica tradicional. Sua literatura soube caminhar pela polêmica estrada do retorno da narrativa, produzindo frutos interessantíssimos de reflexão.

Seu romance "Santa Evita" o tornou conhecido em todo o mundo. Nesta novela impagável, Tomas Eloy revisita o mito de Eva Perón a partir de sua morte e do seu cadáver embalsamado, que desaparece com a queda do peronismo. Longe de ser uma descrição pretensamento pormenorizada e documentada de um mistério mórbido, "Santa Evita" é um mosaico divertido e ao mesmo tempo trágico de uma nação obcecada pela cristalização do passado. Em uma de suas tantas entrevistas, Tomas Eloy Martinez afirmou que a necrofilia é uma enfermidade tipicamente argentina, um produto típico do país, assim como os alfajores e o doce de leite. Essa característica necrófila, para o escritor, se refletia na incapacidade de se construir um futuro e na busca da identidade em um passado de glória cujas esperanças não se realizaram.

Aqui, uma entrevista do escritor e jornalista ao também jornalista Ariel Palácios

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Auschwitz e a obrigação de compreender



No dia 27 de janeiro de 1945 as tropas do exército vermelho libertaram o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na localidade de Oswiecin, Polônia. Auschwtiz foi o nome que os alemães deram para um imenso e assustador complexo de prisão, exploração de mão-de-obra e centro de extermínio nas planícies distantes da silésia polonesa. Um nome que para muitos judeus e outros prisioneiros que desembarcaram ali em gélidas noites de inverno ou sufocantes tardes de verão, atarantados pelo espetáculo de horror, soava com a estranheza de quem acaba de ser apresentado a uma nova terminologia para o designar o inferno.

Há 65 anos o mundo vem tentando compreender o que foi Auschwitz. Pesquisas históricas, memórias de sobreviventes, romances, peças teatrais, músicas, tratados filosóficos. A libertação do campo de extermínio inaugurou seu tema. Depois daquele dia de inverno, a humanidade pareceu compreender que o processo civilizatório perdera o sentido. Adorno apontaria que "a exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la". A libertação de Auschwitz e a memória dos milhares de judeus, ciganos, homossexuais e opositores políticos que perderam suas vidas, famílias, identidades, esperanças neste buraco negro quase incompreensível inaugurou uma reflexão necessária, perene. A cada ano dezenas de investigações acadêmicas sobre o Holocausto são publicadas. Qualquer volume investigativo, por maior que seja, nunca esgotaria tal tema. Em que pesem posições ideológicas e críticas e mesmo a praga do revisionismo irresponsável ou do pouco caso com o passado, a memória de Auschwitz é um dever humano imprescindível.


domingo, 15 de novembro de 2009

A Alemanha Oriental por um alemão de Leipzig

A entrevista abaixo foi feita por mim ao meu amigo Martin Niepel, um alemão apaixonado pelo Brasil, na mesma semana dos vinte anos da queda do Muro de Berlim

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Martin Niepel, um alemão que fala português fluentemente, viveu sua infância na cidade de Leipzig, localizada então na República Democrática Alemã, nome oficial da Alemanha Oriental. Ele conta aqui como foi a sua infância vivendo sob o regime da Alemanha comunista quando nunca podia imaginar que conheceria o Brasil, país que diz "amar de coração".

Quantos anos você tinha quando caiu o Muro de Berlim? Qual lembrança mais marcante você têm desta data?

Eu tinha onze anos e a lembrança mais marcante foi que eu acordei neste dia, levantei da cama e liguei o rádio onde já davam a notícia de que o muro havia caído. Na mesma hora o meu pai entrou no apartamento dizendo "eu vou para o outro lado", porque uma parte da minha família morava na Alemanha Ocidental. Ele dizia "eu vou pedir o visto. Vou para lá urgente para visitar a minha mãe". Minha avó paterna havia fugido para lá já nos anos cinquenta.


E vocês tiveram algum problema por conta desta fuga?

Não. A Stasi (a polícia secreta da Alemanha Oriental) fez algumas perguntas mas muita gente fugiu naquela época então eles não nos importunaram. Quando a minha avó fugiu ela quis que meu pai fosse com ela, um tempo depois. Mas a minha bisavó, que na verdade criou e educou o meu pai, não permitiu. Para ela meu pai teria uma educação mais estável ficando no lado oriental. Minha mãe também, ao fazer uma visita ao outro lado, pensou em ficar mas desistiu da idéia por causa da família.

Vocês então tinham este contato na Alemanha Ocidental, após a fuga da sua avó?

Sim, mas só passamos a nos falar depois de alguns anos. Perdemos o contato e em 1986 a minha mãe conseguiu localizá-los e então passamos a nos corresponder. Apenas a minha mãe chegou a visitá-los do outro lado. O meu pai não chegou a ir nesta época pois não obteve a permissão para atravessar a fronteira.

Como era viver na Alemanha Oriental, para uma criança?

Era tranqüilo, pelo menos pra mim. Na verdade não tinhamos muitas preocupações. Eu fui para o kindergarten (jardim de infância) e depois para a escola. Tinhamos que entrar no Jungpioniere e Thälmann-Pioniere (organizações juvenis marxistas da Alemanha Oriental). De um modo geral, foi uma infância sem maiores problemas.

Ao falarmos sobre a vida nos países do "socialismo real" a maioria das pessoas se lembra sobre imagens na TV de filas para comprar alimentos ou gêneros de primeira necessidade. Você viu essa realidade de perto?

Sim, e até me lembro de um exemplo. Uma vez estavam vendendo pepinos e havia uma quantidade limitada por família. Uma senhora pediu para que eu comprasse dois pepinos para ela. Comprei os pepinos, voltei para casa e minha mãe me disse "estão vendendo pepinos, vamos descer para comprar". Ao chegarmos à mercearia a dona da loja não queria nos vender porque eu já havia comprado e alcançado a cota por família.

Alguns produtos eram mais demandados do que outros. Banana e laranja por exemplo. Na época do Natal havia fila para comprar laranjas.

A cidade de Leipzig ficou famosa por ter se tornado o centro das primeiras grandes manifestações contra a política da República Democrática Alemã que culmiram com a queda do Muro. Você se lembra dessas manifestações?

Sim, me lembro bem. Todas as segunda-feiras as pessoas iam para o centro da cidade e marchavam nas ruas manifestando-se contra o regime e dizendo que não dava mais para viver daquela maneira. Os meus pais participaram, mas nunca me levaram. Eles não se envolveram muito porque na verdade todos tinham medo. De fato, era perigoso.

Para vocês, nesta época, o que significava a Alemanha Ocidental?

Para todos nós significava "consumo". Podíamos ver pela TV as propagandas do outro lado do muro. Eu me lembro bem dos comerciais do chocolate Milka, da Coca-Cola e de outros produtos que não tínhamos como comprar. Vários produtos não podiam entrar na Alemanha Oriental e eu me lembro que até revistas eram confiscadas nos postos de fronteira.

Alguém da sua família ou alguém que você conhece foi investigado pela Stasi?

Eu não me lembro. Minha mãe me conta que meu avô materno, nos anos 60, foi procurado pela Stasi porque havia chamado um colega de "porco comunista". Ele foi interrogado e ficou preso por dois dias até que seus colegas testemunharam a seu favor e ele foi liberado, pois tinha duas filhas para criar.


Atualmente você vê muita diferença entre o lado ocidental e o lado oriental da Alemanha reunificada? Existe preconceito no oeste para com com os alemães do leste ou isso foi se diluindo nos 20 anos de reunificação?

Não, esse preconceito ainda existe. Como trabalho em uma empresa com pessoas de toda a parte do país sinto que ainda há este tratamento diferenciado. Nós, da Alemanha Oriental, somos mais fechados pois passamos muito tempo isolados do mundo. O lado ocidental já estava aberto ao mundo há muitos anos e por isso eles são mais flexíveis.

Em geral os ocidentais pensam que os orientais não gostam de trabalhar e são de uma parte mais pobre da Alemanha.


Com frequência vemos no notíciário que as manifestações neonazistas são maiores no lado oriental. Isso é verdade? Porque voce acha que isso acontece?

Eu acho que isso acontece tanto na parte oriental quanto na parte ocidental mas como somos uma parte menor do país, o foco da mídia está nesta região. Eu acho que essas manifestações neonazistas acontecem porque passamos muito tempo isolados. Não podíamos sair. Nós da Alemanha Oriental temos medo do que é novo. O povo é mais pobre, não há emprego, as indústrias faliram e os grupos neonazistas se aproveitam deste situação para atrair as pessoas.


A Alemanha passou pelo totalitarismo nazista, recuperou-se da guerra, superou a divisão interna e tornou-se uma das maiores economias do mundo. Atualmente os alemães são exemplo de superação e disciplina. Esse espírito pode diminuir as diferenças entre o leste e o oeste no futuro?

Eu acho que isso pode acontecer sim porque é um único país e foi assim antes e durante a guerra. Os anos da existência do Muro e a divisão foram apenas um episódio da História. Eu acho que as diferenças que ainda existem devem desaparecer em cinquenta anos.

O filme alemão "Adeus Lênin" ajudou a criar uma certa nostalgia pela Alemanha Oriental, fazendo ressurgir símbolos como o velho automóvel Trabant (o carro símbolo da RDA). Há algo deste época que você sente falta? Ou tudo isso está superado?

Para mim este tipo de nostalgia não existe. Se a Alemanha Oriental ainda existisse eu não teria a chance de aprender português e de ter vivido no Brasil por algum tempo. Isso só é bom para lembrar o que passou porém não devemos sentir saudade. Eu não tenho nenhuma vontade de viver aquele época novamente.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O velho Marx, quem diria, foi parar na Broadway...

Que o filósofo alemão estava na moda, todos já sabiam. No turbilhão do capitalismo em crise, liberais empedernidos reagem à reabilitação da fortuna crítica sobre o materialismo dialético enquanto marxistas vulgares pregam o fim do mundo ao estilo "nós avisamos!". No embalo dessa onda, produtores chineses aprontam um musical sobre "O Capital". Não deixa de ser interessante imaginar o "fetiche da mercadoria" e o conceito de "mais-valia" com fundo musical orquestrado. Não me surpreenderia que uma possível futura montagem norte-americana ganhasse o Tony. Quem, no frigir neoliberal dos anos 80, poderia prever essa possibilidade?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ícone kitsch e eterno e único carisma

No documentário "Carmen Miranda - Banana is My Business", Helena Solberg faz referência a chegada da pequena notável em solo norte-americano: "Todos perceberam que a Grande Depressão acabara quando Carmen Miranda desembarcou em Nova York".
Se estivesse viva, a mais brasileira das portuguesas, Maria do Carmo Miranda da Cunha, faria 100 anos hoje. Já se escreveu muito sobre Carmen, e sua figura hipnotizante e icônica vale mais do que longos calhamaços. Apenas uma pesquisa no Google já oferece 1.080.000 resultados.
Carmen Miranda é um daqueles exemplos clássicos de como o nacionalismo ainda pulsa poderoso. Basta ler os comentários sobre seus vídeos no Youtube, onde brasileiros e portugueses se engalfinham para definir sua nacionalidade. Quando ela voltou dos EUA em 1940 acusaram-na de voltar "americanizada". Mesmo em sua morte, em 1955, havia quem ainda guardasse mágoa por sua brilhante carreira em Hollywood. E havia os que a enxergavam apenas como instrumento da política de boa vizinhança, ignorando seu genuíno talento. Ver a artista em cena é a melhor maneira de celebrar o inexplicável carisma que ela exerce, nitidamente brasileiro, mas livre de qualquer amarra:

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Alemanha, o papa e a culpa histórica

Se o assunto é Holocausto, a Alemanha não titubeia. O peso do passado é uma lâmpada piscando para cada alemão em qualquer filme sobre o Auschwitz ou em informais conversas de bares e biergartens. No centro de Berlim, ao lado do Portão de Brandenburgo, um imenso memorial cumpre a função de lembrar os cidadãos o seu lúgubre passado recente. Talvez um pitoresco agricultor da Saxônia até sinta-se livre para expressar suas opiniões pessoais sobre racismo, xenofobia, nazismo e genocídio. Mas o governo alemão, desde que a guerra acabou, insiste em deixar claro: o Holocausto é um patrimônio de responsabilidade alemã, assim como é para os israelenses ou para os judeus da diáspora. Se a escravidão foi a chaga do Brasil, o genocídio da população judaica européia é o fardo eterno da nação alemã.
Foi no espírito dessa responsabilidade que a premiê Angela Merkel exortou o papa Bento XVI a deixar claro a posição sobre a negação do Holocausto. Joseph Ratzinger, alemão da Bavária, reabilitou o bispo Richard Williamson, que põe em dúvida a dimensão do extermínio dos judeus pela máquina nazista. Mais uma polêmica e mais gasolina na delicada relação entre o Vaticano e a comunidade judaica.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fatos históricos no nascedouro:
A posse do primeiro presidente negro dos EUA

Barack Hussein Obama, havaiano, negro, advogado, filho do economista queniano Barack Obama e da antropóloga norte-americana Ann Duhnam tornou-se neste dia 20 de janeiro de 2009 o primeiro afro-descendente a ocupar a vaga política mais importante do mundo. Sem dúvida um lugar garantido nos manuais escolares de história e nas enciclopédias. Futuro nome de ruas, praças, fundações. Um fato histórico genuino, com todo cerimonial que lhe cabe. Obama tomando posse vale o quilate simbólico do discurso de Roosevelt em 1933, De Gaulle discursando do exílio, Reagan exortando Gorbachev a derrubar o muro de Berlim ou Lula recebendo a faixa de FHC no Brasil.
Os EUA vivem um momento único de ressaca econômica misturada com felicidade ansiosa por um tempo melhor. Obama sabe disso e tem aproveitado o momento como ninguém. A futura iconografia dos livros de história irão focar a elegante caminhada do presidente negro e sua esposa pela avenida Pensilvânia na fria tarde deste 20 de janeiro, ovacionado por uma multidão em visível alegria. Mas, nas páginas que ainda não foram escritas, como serão os anos Obama? Historiadores de hoje têm o privilégio de viver esses dias.

(Na foto, cidadãs de Nova York assistem, com um olhar quase incrédulo, a posse de Obama. Foto: Tristanbrand/Flickr)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Israel em Gaza ou defesa com massacres colaterais...

Se Edward Said, um dos maiores intelectuais palestinos do nosso tempo, estivesse vivo, certamente escreveria um longo artigo sobre a última e sangrenta ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Sua observação perspicaz, com toda a coragem que só a liberdade da militância intelectual permite, apontaria as contradições de mais uma aventura militar israelense, que em nome da "defesa de sua cidadania" avança em mortes às centenas. Qualquer observador mais atuante saberia que as ações de Israel, iniciadas na calada do feriado de fim de ano, não resultaria em "apenas" dezenas de mortos. O saldo seria sangrento e bárbaro: homens, mulheres, velhos e crianças mortos, sob escombros. É fácil ser profeta quando se fala em ações do exército de Israel. Mais ainda no vácuo de poder americano e com às vésperas das eleições. Temerosos por sua segurança e influênciáveis pela retórica sionista, os israelenses votam de acordo com a severidade do seu exército. Os palestinos que elegeram o Hamas também votaram de acordo com a rudeza dos seus mais afiados extremistas.


Milhares sem casa, água, comida, remédios. Até a ONU, com seus ouvidos moucos e olhos míopes para a tragédia palestina, sentiu na carne a superioridade das "razões de Estado". Nos últimos dias do governo Bush, o governo de Ehud Olmert parece estar disposto a dar a sua última mostra de unilateralismo. Com Obama surgindo no horizonte, as liberdades de Israel não parecem tão possíveis assim. Quando Condollezza Rice se absteve de votar em uma moção contra o estado israelense na ONU o mundo notou que, mesmo em alianças estratégicas, tudo tem limite. Os foguetes do Hamas apavoram as populações de cidades israelenses. Mas usá-los como justificativa para bombardear escolas com mulheres e crianças parece longe demais da realidade para que a comunidade internacional aceite sem pensar. Existe um abismo de diferença entre a ansiedade por um provável ataque de míssil do Hamas sem direção e a certeza de uma chuva de bombas sobre uma densa área populosa. A imprensa internacional, mesmo que em uma parcela mínima, parece ter entendido a discrepância.

Pela primeira vez parece que o mundo reagiu à uma ofensiva de Israel com um pouco mais de clamor à favor dos palestinos. Longe do ranço do antissemitismo e com uma postura crítica, milhares sairam às ruas para pedir um basta. Os mais otimistas poderiam ver nisso uma guinada em direção a um entendimento maior sobre a realidade de milhares de pessoas, presas em campos de refugiados, vítimas de uma ocupação ilegal e irracional, que faz germinar o radicalismo e a violência dos ataques suicidas. Nessas horas, Edward Said é a melhor indicação para quem quer entender um pouco essa parte do mundo. Os palestinos clamam por serem também compreendidos em sua tragédia que já dura mais de 60 anos. Até brilhantes intelectuais israelenses sabem disso. Para os defensores do Hamas, ler Said é ter também um pouco mais de senso crítico, para dar mais sustentação à acusações e críticas

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Trilhos da paulicéia

São Paulo é uma cidade tão cruel, muitas vezes, que até priva seus pobres habitantes de algumas pequenas felicidades momentâneas. Andar de trem é uma delas.
Dia desses deixei o carro em casa e fui de trem. Sim, o bom e velho ferrocarril, o monstro de ferro que desbravou os campos e trouxe o progresso, o comboio dos operários da periferia, o prosaico e eficiente transporte ferroviário.
Depois de uma caminhada saudável cheguei à Estação da Cidade Universitária, às 7h da manhã, para embarcar em direção ao trabalho. Imediatamente me lembrei das minhas andanças em Berlim, quando ir da Zoologischer Garten Hauptbahnhof até a estação de Ostkreuz era parte do prazer de viajante mochileiro. Sem dúvida nenhuma que o trem de subúrbio é o mais cosmopolita dos transportes, ao lado do metrô. Tirando o fedor do Rio Pinheiros e a endêmica feiura paulistana, o trem mantém seu charme. É claro que não estamos em Berlim ou Paris. Mas eu já tinha me esquecido de um prazer que eu cultivava desde a infância. Andar de trem sempre foi uma das minhas predileções.
É tão irritante saber que, um dia, interesses econômicos e a estupidez política decidiram que o transporte rodoviário e a cultura do carro seria o foco do nosso "desenvolvimentismo". Ao invés de avenidas horrorosas ao lado de rios e mananciais poluídos no nascedouro teriamos parques, e talvez trilhos. São Paulo sempre dá a impressão de ser uma cidade que poderia ter sido e nunca será.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Joaquim Maria, o sempre atual, manda lembranças

Falar de Machado de Assis sem cair no clichê é tarefa difícil., .
Mas, nunca é demais reforçar que, parafraseando em parte Luiz Inácio , "Nunca na história desse país" a nossa elite senhorial iria ter uma radiografia tão criticamente bem feita que, de tão bem desenhada, ela mesma não seria capaz de enxergar-se. Machado escrevia para quem tinha olhos abertos, mas os cegos e míopes podiam lê-lo sem maiores traumas existenciais.
Não deixa de passar pela nossa cabeça como seria o quadro social dessa nossa elite de início do século XXI (cada um tem a que merece) descrita por Machado. Nosso tempo do consumo, da sociedade do espetáculo, do vício tecnológico, do capitalismo pujante vizinho desavergonhado da alarmante miséria, da guerra social e da violência, das mulheres e homens coisificados. É um exercício quase delicioso, e não menos tétrico, imaginar tudo isso visto pelas lentes machadianas. Bacharéis e sinhazinhas do século XXI provavelmente comprariam o livro do escritor ao vê-lo na lista dos mais vendidos na Revista Veja, da qual são assíduos leitores, sem atentar para o fato de que suas próprias caricaturas sociais estão impressas em sofisticada escrita.

O mulato Joaquim morreu em 29 de setembro de 1908, tendo sido identificado como branco em seu atestado de óbito. Ele se adaptaria facilmente ao nosso tempo em que ser mulato é cool
  • Toda a obra de Machado na internet. Enjoy

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O mercado "nervoso" ou engasgos do neoliberalismo

No já clássico "A Era dos Extremos: O breve século XX", Eric Hobsbawn afirma que, com certeza, sem o colapso econômico do entre guerras, fruto do crash na bolsa norte-americana em 1929, não teria havido Hitler. E quase certamente não teria havido Roosevelt.
Mesmo com uma certa resistência às versões "da história que poderia ter sido", não há como afirmar que a crise do liberalismo, que acentuou o fascismo e desembocou na guerra mais mortífera da história, não tenha surgido do rastro daquele dia fatídico. O capitalismo da alta roda sentiu o frio na espinha, financistas estouraram os miolos e o mundo adentrou num túnel negro que só terminaria após o fim da guerra.


Usando as palavras do próprio historiador britânico: "As operações de uma economia capitalista jamais são suaves, e flutuações variadas, muitas vezes severas, fazem parte integral dessa forma de reger os assuntos do mundo"(A Era dos Extremos, pag. 91). "Essa forma de reger os assuntos do mundo" dá mais um sinal de sua essência auto-destrutiva. Nada mais exemplar do que a última segunda-feira, quando a concordata do Lehman Brothers, o 4º maior banco de investimento dos EUA, afundou os mercados. Arautos do mundo financeiro apressaram-se em dizer que essa é a pior crise desde a fatídica quinta-feira de 1929. O neoliberalismo já está em crise, isso é fato, embora o mundo do pragmatismo prefira disfarçar a doença terminal. Mas se a história pudesse se repetir literalmente, de onde viriam os novos Hitler e Roosevelt? Só há uma certeza. Em tempos de ações em baixa e economia em recessão, liberais de carteirinha perdem a língua e "apelam" ao Estado, esse inimigo do indivíduo e do livre-mercado. Passada a crise (se passar), como é de praxe, o Estado será culpado por ela e os especuladores de Wall Street serão apenas "o efeito colateral" da natural ordem do mercado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O começo do fim em 2001

Nenhuma propaganda anterior aos ataques do 11/09, anunciando um mundo aparentemente pleno de felicidade com avanços tecnológicos, da internet, do fim das guerras ideológicas entre o socialismo real e o capitalismo (com a "vitória" inegável do segundo) e globalização à caminho do progresso teve o poder de eficácia da imagem dos dois aviões seqüestrados atingindo em cheio dois ícones do poder financeiro. Em poucas horas, o planeta parecia estar sendo despertado do torpor da aparente bem-aventurança linear do século XXI por uma nuvem de poeira com cheiro de querosene, entulho e carne calcinada.

Os ataques do 11 de setembro não deixaram somente um buraco no Marco Zero. Criaram um ponto de interrogação gigantesco a respeito dos futuros embates que nos restam. Se os Estados Unidos puderam viver uma hegemônia realmente plena, ela se estendeu da queda do Muro de Berlim até aquela fatídica manhã novaiorquina de aviões seqüestrados. A História já demonstrou mais de uma vez que o que vem do lado oriental é o que sempre surpreende, como uma manhã que nasce antes da hora.

A reação doméstica:


terça-feira, 9 de setembro de 2008

"Oye, una fresa! hoy es mi dia de suerte!"

A popularização do DVD tornou possível encontrar alguns títulos da cinematografia mundial que não se encontrariam tão facilmente há uns 3 ou 4 anos atrás por ai. Nessa leva, vasculhando as baciadas das lojas de departamentos, consegui trazer "Morte e Veneza" de Visconti, "Plata Quemada" de Marcelo Piñeyro, "Guerra e Paz" com Audrey Hepburn, entre outros títulos para minha coleção pessoal. Tudo bem que hoje em dia é fácil baixar o que se queira via torrent, mas nada como um filme a preço acessível, com capa ilustrada, extras e legendas já organizadas.
Minha última boa surpresa dessa leva foi "Morango e Chocolate" do celebrado diretor cubano Tomáz Gutièrrez Alea, com Jorge Perugorría, Vladimir Cruz e Mirta Ibarra. Eu tinha esquecido o quanto o filme era tão degustativo. Mais do que uma película sobre a amizade, as idiossincrasias ideológicas de um regime socialista e a homossexualidade sob o comunismo (condição pária em qualquer regime político, pelo menos até hoje), "Morango e Chocolate" é um brinde à cultura cubana. Principalmente ao apreço à cultura e à intelectualidade, suprimida em alguma instância pela realidade política. O Diego de Jorge Perugorría é a própria celebração dessa Cuba de Marti, Lezama Lima, Reinaldo Arenas.



Infelizmente a capa do DVD traz indicações pouco aprofundadas a respeito do filme. "Morango e Chocolate" não é uma comédia saborosa ao gosto latino, como os jornais norte-americanos anunciaram. Mais do que isso, é um retrato fiel e justo de um país cheio de riqueza intelectual, às voltas com a situação de penúria financeira provocada pela fidelidade a um modo de vida socialisa em um cenário neo-liberal pouco simpático. Fidelidade cujo custo são as liberdades individuais. Mas não há como reconhecer, na criativa vida de Diego e em sua fala sedutora, toda a espontaneidade que é impossível de se ocultar. Quem não viu, veja

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Do Estado Novo ao Fim da Guerra Fria em uma entrevista

Disponível facilmente no Youtube uma entrevista da historiadora Anita Leocádia Prestes, filha de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes, que nasceu em uma das muitas prisões da Gestapo em Berlim. Um pouco do nazismo, o Brasil do Estado Novo, a trajetória de Prestes e os lances políticos mais importantes do Brasil dos últimos 60 anos. Uma produção da TV Câmara

domingo, 15 de junho de 2008

Uma foto e seu comentadores

Quando o desenvolvimento da indústria da internet possibilitou que mais e mais usuários produzissem o seu próprio conteúdo, houve uma série de consequencias curiosas. Do lado mais reacionário dessa pequena revolução, uma boa parte das pessoas já acostumadas a consumir informação pela web, algo agora corriqueiro, acharam ruim que não houvesse um filtro para opiniões postadas. Outros grandes veículos da mídia chegaram a considerar a opinião de blogueiros e afins algo completamente sem valor. Na outra ponta, aqueles que comemoraram a liberdade da própria produção da informação e os que abusaram disso.

Do meu ponto de vista a coisa mais interessante a ser analisada são os comentários a respeito de algo postado na internet, como um vídeo ou uma foto histórica. O exemplo abaixo, uma foto de um garoto negro tirada pelo fotógrafo John Vachon em Cincinnati, Estados Unidos, revela a riqueza de um artefato histórico. Uma foto belíssima, que em seu título deixa transparecer o imaginário de uma época e em seus comentários revela a importância da eterna discussão envolvendo a temporalidade das opiniões.

Clique na foto para ver os comentários ou talvez contribuir com suas reflexões a respeito: